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CÉU E INFERNO SÃO AQUI. Por; Rogério Newton

Performance do ator Xico Carbó. Foto: Emanuel Vital

 Performance do ator Xico Carbó. Foto: Emanuel Vital

No último dia 19 de abril (Sábado de Aleluia), o ator e diretor XicoCarbó, apresentou performance tematizando o Riacho Mocha. O ato aconteceu na Ponte Zacarias de Góis, tida como a mais antiga do Piauí, tombada pela entãoSecretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1939. É uma ponte de pedra, constituída de três arcos, nos moldes europeus da época em que foi construída (1845).

Oator encarnou personagem revestida de barro dos pés à cabeça, sentada numa cadeira rústica, tendo, como mordaça, um pano amarrado na boca, também cheio de barro. Pendurados ao pescoço, três objetos imprestáveis, sendo um deles o pedaço de uma peça enferrujada, usada nas pias, por onde desce água suja. À sua frente, monóculos sobre um tamborete de madeira, que as pessoas podiam olhar e ler fragmentos de poemas.

O pano amarrado na boca era uma clara alusão à impossibilidade (ou proibição) de falar. A interação dos transeuntes com a personagem muda e imóvel era mediada pelos fragmentos de textos poéticos e pela inscrição TENHO SEDE, na cor vermelha, em vários lugares do reboco branco da ponte.

Não é a primeira vez que o ator e diretor Xico Carbó faz performance sobre o Riacho Mocha, que se encontra bastante degradado, feio e sujo, sobretudo na galeria de concreto feita no leito daquele curso d’água, em cujas margens a cidade nasceu. Trata-se de um “esgoto a céu aberto”, como é comum dizer-se na linguagem local, para designar o riacho dentro da área urbana.

Até aí nenhuma novidade: nem a performance de caráter estético e político (não confundir com política familiar-partidária), nem a situação degradante do Riacho Mocha, razoavelmente conhecida por todos.

Se não há novidade em relação ao alto nível de degradação do riacho e a quase total ausência de providências públicas, privadas, individuais e coletivas para enfrentar o problema, por que Xico Carbó reedita criativamente o ato performático? Essa é uma boa pergunta. O artista é consciente do seu ofício e não estaria a perder tempo com uma atitude inconsequente.

Na verdade, a performance, como toda obra de arte, pode comportar múltiplos significados e suscitar mais perguntas que respostas. O caráter mudo e imóvel da personagem remete ao estudado silêncio existente em Oeiras no que tange à problemática que envolve o Riacho Mocha. Remete também à imobilidade quase total da sociedade e das autoridades em procurar e encontrar soluções para esta e outras questões coletivas.  Há uma paralisia na sociedade quanto às questões coletivas. Isso tem a ver com a imobilidade da personagem.

A expressão TENHO SEDE, escrita na ponte, substitui outra expressão, bastante utilizada pelo ator em outras performances: O RIACHO TEM SEDE, retirada de um poema de Jadson Santos. O verbo passou para a primeira pessoa do singular, isto é, agora é o próprio riacho quem fala. Ele está sedento, essa sede pode lhe matar e não se restringe a uma sede de água. A sede é também de justiça.

Por que sede de justiça? Porque o riacho foi fonte de água, inspiração e vida para a cidade e encontra-se em situação de alta degradação e abandono provocados pela própria cidade, que, sem o riacho, não teria vindo a existir. Oeiras, que julga não mais precisar do riacho, dá-lhe em retribuição um pontapé no traseiro, embora tenha se servido dele e ter dado em troca uma série de problemas: lixo, desflorestamento, sujeira, ocupação indevida e obras feias, antiecológicas e caras.

MODOS DE PENSAR E SENTIR

Escapando um pouco da discussão rasa, a situação degradante em que se encontra o Riacho Mocha é resultado, entre outras coisas, dos modos de pensar e de sentir dos oeirenses. As atitudes mentais antecedem as atitudes físicas. Em geral, está enraizado em toda a sociedade o pensamento segundo o qual o ser humano deve dominar a natureza, constituindo a seguinte relação: o ser humano é o sujeito, a natureza o objeto; o primeiro subjuga, a segunda é dominada. Explorar e saquear a natureza é sinônimo de civilização. O contrário, isto é, reconhecer na natureza valor intrínseco, ver o ser humano como parte integrante dela e cuidar e se relacionar com a natureza são sinais de atraso, mesmo que o preço pago pelo ser humano pelo uso irracional e agressivo para com a natureza seja muito alto.

O fato de a sociedade atribuir à natureza a condição de objeto manipulável e, além disso, na escala de valores, atribuir à natureza significação e valor menor que as obras construídas pelo ser humano, pode explicar o desprezo que a cidade de Oeiras dispensa ao Riacho Mocha. Dentro da cidade, as margens do riacho são lugares destinados aos bairros pobres, obrigados a conviver com enormes esgotos fétidos. São lugares insalubres e sujos, incompatíveis com moradias dignas e convivência saudáveis entre seres humanos.

Geralmente, quando se apreciam problemas existentes na cidade, não se considera a psicologia dos seus habitantes, isto é, as formas de pensar. É natural e aceitável haver degradação e condições precárias onde moram os pobres, mas isso não é recomendável onde moram ricos ou remediados.

A destruição da natureza em geral e a destruição dos ecossistemas do Riacho Mocha em particular estão na base do medo que o ser humano tem da natureza. Por isso, ao invés de se aliar a ela, o ser humano procura subjugá-la, achando equivocadamente que pode fazer isso de forma irrefletida e sem limites. E assim o faz porque também pensar dá muito trabalho. É um exercício que exige esforço cognitivo e compromisso com a verdade.

O medo da natureza transforma-se em ódio dirigido a ela, expresso em atitudes destrutivas, daí o surgimento de tantas ações insanas que o Riacho Mocha vem sofrendo a muitas gerações, especialmente nos últimos cinquenta anos. Racionalmente, não se explica a quantidade de tantas agressões ao riacho, inclusive obras públicas, como o açude Soizão, a galeria-esgoto entre a Ponte Grande e a Ponte da Várzea, o Mercado Lili Lopes e, mais recentemente, a colocação de canos subterrâneos no leito do riacho, obras antiecológicas e caras, teimosamente construídas, sem falar nas medidas que deveriam ser concretizadas, como o milionário PRAD (Programa de Recuperação das Áreas Degradadas), que previa o plantio de 30 mil árvores nas margens do Mocha, árvores essas que nunca foram plantadas.

A aparente, para muitos ilusória, capacidade do ser humano dominar a natureza está vinculada à extroversão, o “estilo do Ocidente”, que considera a introversão uma anomalia. A atitude introvertida é amiga da reflexão, do pensamento ponderado e, mais que isso, da vida interior. Extroversão excessiva ou mal orientadaestá ligada ao “domínio” da natureza e do mundo externo e a uma desconfiança e aversão ao mundo interior, do qual a maioria das pessoas procura fugir, inclusive as que ostentam religiosidade de aparências.

Explica o psicólogo suíço Carl Gustav Jung: “É possível que queiramos distanciar-nos o máximo possível de nossas fraquezas, fato este que explica aquela espécie de extroversão com que se procura dominar o meio ambiente”.

MAPA SOCIAL

Uma das coisas mais intrigantes sobre o riacho Mocha é que há um entendimento mais ou menos generalizado do que é necessário fazer para enfrentar a problemática, mas pouco se faz nesse sentido. Todos sabemos que esse enfrentamento não pode deixar de considerar questões como saneamento, recuperação das matas ciliares, adequação ao urbanismo, recuperação dos olhos d’água e nascentes, integração do riacho à paisagem urbana e vice-versa, construção de parques e jardins etc. A grande pergunta que se coloca é: por que a cidade, seu povo, seus estudiosos, seus representantes políticos, suas instituições não se movimentam para buscarem a resolução do problema?A pergunta não é fácil de ser respondida, mas seguramente envolve os aspectos psicológicos mencionados nos parágrafos antecedentes e aspectos sociais, dentre outros.

É fato que o Riacho Mocha está situado dentro de um mapa social, isto é, dentro de uma sociedade específica. E aí reside boa parte da problemática, pois a sociedade possui não só muitas facetas, mas também crueldades. Por isso, convém recorrer à Sociologia, ciência que estuda a sociedade.

O sociólogo estadunidense Peter Berger pode nos dar uma luz para compreendermos o Riacho Mocha dentro da sociedade a que pertence, isto é, a sociedade oeirense. Diz ele:

“Estar localizado na sociedade significa estar no ponto de intersecção de forças sociais específicas. Geralmente quem ignora essas forças age com risco. A pessoa age em sociedade dentro de sistemas cuidadosamente definidos de poder e prestígio. E depois que aprende sua localização, passa também a saber que não pode fazer muita coisa para mudar a situação”.

Afirmar que existimos em sociedade dentro de sistemas de poder ajuda muito a entender por queas pessoas e a sociedade estão “engessadas” para enfrentar a questão do Riacho Mocha e outras de interesse coletivo. Por seu turno, as instituições padecem da mesma paralisia, pois, como enfatiza Peter Berger, trazem consigo um princípio de inércia alicerçada “na rocha firme da estupidez humana”.

“Os mecanismos sociais funcionam de maneira a eliminar membros indesejáveis”, afirma Berger. Talvez o Riacho Mocha seja um elemento indesejável para a sociedade oeirense. Não o riacho sujo, feio, sem água, sem árvores, sem beleza. Este, sim, é o riacho que a sociedade quer. Não fosse assim essa mesma sociedade não o teria levado a essa condição, em cujo processo de degradação indivíduos e grupos com mais poder e prestígio tiveram e têm mais participação do que indivíduos e grupos que não os têm.

Por sua vez, o riacho limpo, belo, cheio de árvores, peixes e vida, este, sim, é o riacho indesejável para a sociedade, porque para conviver com um riacho assim a sociedade teria que mudar ela própria sua forma de existir. Teria, por exemplo, de se relacionar e interagir mais com o ambiente natural e desfrutar de sua beleza e de outros benefícios. Teria que defender valores aos quais não costuma dar atenção e cuidado. Seria muito penoso para a sociedade fazer isso, seria necessário esforço e compromisso. E isso a sociedade não quer. Prefere permanecer imobilizada e apática, mesmo que isso prejudique, como de fato prejudica a ela própria e a seus membros.

Aqui é necessário ressalvar que, embora a sociedade seja majoritariamente conivente e muitas vezes omissa, quanto à problemática que envolve o Riacho Mocha, há manifestações de seus membros individuais e até mesmo de pequenos grupos informais, cujas vozes são dissonantes do conformismo generalizado existente em Oeiras.

Nos últimos cinquenta anos, artistas, poetas, escritores, estudantes, professores não só denunciaram e protestaram, mas também produziram documentário, exposição de fotografias, poemas, performances, livros, canções, artigos, seminários, fóruns etc, tematizando o Riacho Mocha e reivindicando providências. Tudo isso foi e está sendo necessário (como a recente performance de Xico Carbó), mas ainda não foi suficiente para resultar em providências concretas em benefício do Riacho Mocha, que tem amealhado número considerável de derrotas.

FÉ FRACA

Oeiras ostenta uma diversidade considerável de expressões exaltadoras de sua suposta grandeza, como Capital da Fé, Terra-berço do Piauí, Terra da Cultura, terra disso e daquilo. Tais cognominações tem servido mais como sofá do que como trampolim. Tem contribuído muito mais com a estagnação do que com os saltos de qualidade. Se um indivíduo costuma receber elogios em demasia, provavelmente se torne preguiçoso, arrogante, avesso ao estudo e à solidariedade social. E o que é pior: possivelmente se transforme num instrumento do reacionarismo. Com uma cidade pode dar-se o mesmo. Se realmente somos, por exemplo, a Capital da Fé, essa fé tem se revelado fraca para propiciar a criação de políticas públicas, instrumentos e estratégias no sentido de enfrentar a problemática do Riacho Mocha e outras questões de interesse coletivo. Ou a fé diz respeito somente às virtudes teologais ou ao céu distante e inatingível?

 

Rogério Newton é escritor

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