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DA SOLIDÃO, DA MENTIRA E DO CANSAÇO. Por; Rogério Newton.

Foto: reprodução

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Tenho visto nas “redes sociais” vídeos curtos de políticos do interior piauiense, “posts” de auto exaltação, que apresentam feitos edificantes e “o melhor dos mundos possíveis”.

Em um deles, o prefeito do município de Wall Ferraz aparece enterrando uma plantinha em um espaço público. Em seguida, imagens de distribuição de mudas. Esse alcaide é o mesmo que mandou derrubar árvores na praça principal, dentre elas, umbu-cajá, cajueiro e mangueira. Só um jatobazeiro escapou. Em dezembro de 2024, a prefeitura pagou 300 mil reais ao cantor Wesley Safadão.

Perto de Wall Ferraz, em Oeiras, há emissão de “posts” que exaltam 33 obras em andamento no município, uma delas a aplicação de asfalto em ruas e avenidas, apesar de a cidade, frequentemente, liderar o ranking de altas temperaturas e baixa umidade no Brasil.

  Esses exemplos podem ser interpretados como pessoais ou isolados, mas, infelizmente, não são. Trata-se de práticas políticas norteadas pela mesma lógica predominante nos 224 municípios piauienses e talvez de todo o Brasil, na qual há uma alegre integração entre autoridades locais, estaduais e federais com o suprassumo da inteligência política tupiniquim: as emendas parlamentares.

Dito assim, isso ainda parece pontual, um mero defeito da política brasileira. Mas não é só. Esses exemplos são sintomas de males muito maiores, porque são sistêmicos, constituem a razão de ser de um sistema complexo e nefasto, em que política, economia, cultura e sociedade estão fundidos, alimentados por processos contínuos que os mantém em funcionamento.

O filósofo coreano Byung-Shul Han denomina a sociedade atual de “sociedade do cansaço”, em que predominam superprodução, superdesempenho e supercomunicação. Segundo ele, há um “excesso de positividade”, que entendi como sendo excesso de coisas sendo feitas, variações da mesmice, portanto, sem subsistência e sentido duradouro.

A necessidade de ter e mostrar desempenho na sociedade atual pode explicar o fato de homens e mulheres públicas (mais homens que mulheres) se exibirem tanto nas “redes”, mesmo que tal desempenho seja falso ou pelo menos muito questionável: o “desempenho sem desempenho”.

Homens e mulheres públicos, com pensar privado, fazem apologia do trabalho, dizem construir obras e contratam assessores de comunicação para alardear feitos. É a “violência da positividade”, nome elegante para fenômeno sem. Outro nome é “violência neuronal”, que produz depressivos e fracassados. E a sociedade, qual seu papel? Na fragmentação e na atomização, produz fatos e razões para se escrever ensaios sobre a cegueira.

“A sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho. Também seus habitantes não se chamam mais “sujeitos da obediência”, mas sujeitos de desempenho e produção.”

Segundo Humberto Eco, as “redes sociais” deram voz a uma “legião de imbecis”. Eu diria que também disseminam o fingimento, a falsidade. Podemos apontar os exemplos citados no início, mas também um número interminável de instagramáveis.

Os exemplos dos prefeitos são apenas a ponta do iceberg. O ponto notável deles é a total inabilidade, incapacidade ou vontade de enfrentar “grandes temas”, de penetrar nos problemas e nas dores da sociedade, que reclamam um pensar e um sentir minimamente sensíveis. Daí as evasivas das questões essenciais da sociedade, da economia, da cultura e da política, em troca dos desempenhos dourados pela pílula escapista, que mantém tudo na mesma. 

Por isso o “negacionismo” e a fuga dos problemas que afligem populações inteiras, silenciados por homens e mulheres públicas, que preferem demonstrar seus desempenhos em campos mais rentáveis e em “bolhas” cômodas, para manutenção do “sistema de moer gente”. 

Byung-Chul Han usa a expressão “política paliativa”, que traduz esse fenômeno. “A política paliativa não é capaz de visões ou de reformas penetrantes. Ela prefere tomar analgésicos de curto efeito, que apenas aceleram disfunções e rejeições. “A política paliativa não tem nenhuma coragem para a dor.” “Não apenas a arte, mas também a própria vida tem de ser instagramável, ou seja, livre de ângulos e cantos, de conflitos e contradições que poderiam provocar dor.” “Também o sofrimento é interpretado como resultado do próprio fracasso. Assim há, em vez de revolução, depressão.”

Citando Nietszche, Byung-Chul Han afirma que a vida humana finda numa hiperatividade mortal se dela for expulso todo elemento contemplativo. A possibilidade de se recuperar o riacho ou de existir um parque verde com árvores, umidade e silêncio em uma cidade como Oeiras está interdita na “democracia paliativa”, outra expressão usada por Han.

Ele diz abertamente: a “sociedade paliativa” é uma sociedade sem verdade. E a sociedade é do cansaço, porque, como diz Paulo Machado no poema Revelação, estamos fatigados de mentiras.

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